sexta-feira, 26 de março de 2010


De forma que eu não possa voltar atrás, aos poucos eu vou saindo de onde eu estava, indo para pleno céu aberto, sob plena luz do sol. Se antes eu estava protegido, agora estou aqui. Caminhando para a destruição, talvez. Há um bombardeio neste céu... mas há um bombardeio em mim também.

Não sei se o medo e o desespero se camuflaram dessa paz tão enaltecedora que me acomete... mas olho para cima, para o sol, deixando-me cegar aos poucos, pela luz que tudo inunda e tudo afoga - de felicidade.

É uma pena... a felicidade destrói tudo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Off.


Tem um monte de coisa passando pela minha cabeça... mas são coisas que não quero falar... ou repetir, nem para mim mesmo. Há algumas coisas que simplesmente ficam no pensamento... desorganizadas... à deriva... presentes e importantes, mas não fixas... dispensando comentários, enfim.

Mas ficam à boca, esperando para sairem... e nunca saem. Ainda bem que nunca saem. Abençoado seja o silêncio, a entorpecência de idéias esfumaçadas e o desapego.

E a mente fica constantemente quieta... como quando olhamos para o nada, fixamente, por algum tempo. Se pudesse resumir esse estado de espírito... não... não há resumo. Nem definição. É, na verdade, a sombra de algo que não existe.

quinta-feira, 11 de março de 2010


Cansado e com muito sono, começa a sentir novamente os primeiros sinais da vida que retorna muito lentamente... há algum tempo começou a sentir fome e sede, novamente. Tudo continuava escuro, com exceção da luz que o guiava.

Deitou em uma formação côncava e muito confortável, longe da umidade. Deitado em concha, admirava alguns cristais coloridos que pegou no caminho, sub a luz fraca e tremeluzente de sua brilhante pequena companhia. O ambiente era enorme. Uma galeria quase sem fim. Não conseguia ver o teto, nem as paredes que cercavam o local. Tudo era estalagmites. O reflexo de alguns mirenais minúsculos nas rochas davam a impressão de ser um salão de diamantes. O sono foi pesando em seus olhos e adormeceu.

Logo foi coberto pelo manto de ilusões da Senhora dos sonhos e passou a viver momentaneamente, num lugar incrível. Nada era nítido e não enxergava pelo canto dos olhos. Encarava tudo diretamente e não guardava nenhuma imagem na memória. Estava na praia, numa noite muito limpa, de verão. A praia tinha um tom azul escuro muito especial, e a água e a areia eram iluminadas pela luz da lua cheia, alta no céu cheio de estrelas. A praia era extensa, com algumas rochas distantes no mar, que se erguiam como pilares altíssimos. A brisa morna que soprava do mar lhe trazia o perfume doce da maresia, enquanto envolvia seu corpo em carícias sutis. A areia era macia e recebia seus pés como estofados de seda. Ele sentou-se e não fez mais nada. Apenas contemplava tudo diretamente, enquanto o canto dos olhos nada captava e tudo ao redor era escuridão. Um sonho simples... calmo e nada mais. Ele não precisava de nada mais. O primeiro sonho depois de tanto tempo na escuridão.

E a brisa soprava morna do mar... e as estrelas cintilavam... e as ondas quebravam em silêncio, prateadas sob a luz da lua cheia.

sábado, 6 de março de 2010

Algo chamou sua atenção. Pensou ter visto algo...
Encarando o escuro, atento e de olhos escancarados, procurava. Não estava assustado. Estava calmo e o coração conservava os mesmo sentimentos soturnos de antes. Mas algo estava diferente.

Do escuro, uma luz, fraca e trêmula apareceu, não exatamente na sua frente, mas era nítida, embora não passasse de um pequeno ponto. Sumiu rapidamente. Ele pôs-se de pé num salto e esperou que ela se manifestasse mais uma vez. O brilho passou rápido, perto do chão, sendo refletido por inúmeros cristais pontiagudos vermelhos, pequenos, incrustrados na rocha. Sumiu em seguida.

O brilho era regular. Aparecia e desaparecia em períodos exatos de tempo. O escuro então se dissipava na companhia da nova luz. Mesmo quando era incontestavelmente penetrante, quando o brilho se apagava, o escuro não era mais tão ameaçador. Tudo estava em silêncio... mas não era mais desesperador, como antes. Ele então, pôs-se a caminhar, enquanto o brilho o acompanhava, mostrando a cada insignificante flash, a rocha incrustrada de minerais vermelhos, refletindo muito fracamento, toda a beleza que antes estava oculta.

Não podia negar que ainda estava perdido, nem que ainda era escuro e tudo muito quieto e solitário... mas agora, havia algo diferente.
Acordou com muito frio. Tremendo no chão, tudo continuava muito escuro. Estava se sentindo péssimo. Seu corpo todo doía e os ferimentos antigos pareciam avivados, por todo o frio que passava. Tossiu e sentiu a boca amarga. Não enxergava nada. Levantou com dificuldade, tremendo e retorcendo o rosto pela dor em todo o corpo. Se sentia tão desestimulado, que poderia continuar ali mesmo. Não tinha vontade de continuar ou achar uma saída. O vento, os tremores... parecia que não tinham passado de um sonho... O primeiro, depois que a noite caiu.

Lembrou que havia sido atacado... atacado? Não havia nada ali. Provavelmente, mais algum espírito ou o próprio escuro lhe havia derrubado. Não seria a primeira vez. Sentado, esfregando os braços frios com as mãos raladas, não tinha vontade de se mover. Encarava o nada que lhe cercava, ainda que não soubesse mais se estava de olhos abertos ou fechados. Não fazia diferença. Estava tão cansado...

Com uma das mãos, tentou sentir o chão e a parede da caverna... haviam concreções... provavelmente cristais. Tinham formas delicadas, podia sentir a suavidade dos vértices em seus dedos. Devia ser tão bonito ali, se houvesse alguma luz... Mas não podia ver. Não conseguia enxergar a beleza, nem quando ela estava bem a frente. Não consguia pensar em nada que lhe alegrasse. Percebeu que aos poucos, quase todos os sentimentos lhe foram tomados pelo escuro e pela solidão. Aos poucos, deixava de ser... e a vida lhe era aspirada pelas rochas. Pensou que se continuasse ali por muito mais tempo, passaria a fazer parte daquela escuridão... e desapareceria. Deitou-se no chão... e esperou.

sexta-feira, 5 de março de 2010


Estava escuro... Tudo era silêncio e ar pesado. Não havia o que fezer, nem para onde ir exatamente. Estava perdido.

Saber que se encontrava em um labirinto subterrâneo o incomodava ainda mais. De repente, tudo estremeceu. O chão, as paredes, o próprio ar. Ele se sentia no interior de um monstro terrível e faminto. O rugido causado pelos tremores fazia o escuro parecer um demônio sendo torturado até a morte. Não sabia realmente o que fazer. No auge do frenesi, sentiu uma rajada de vento lhe empurrar o corpo para trás. Não tinha certeza de onde, mas sabia que estava perto da saida. Sentiu no peito uma ansiedade como aquelas de momentos decisivos na vida. Um gelo no estômago lhe fez tomar fôlego e se encheu do ar pesado que se arrastava pela brisa.

Seguindo rápido, impulsivo, em direção ao ar fresco, foi abatido repentinamente. Um golpe progundo no estômago lhe tirou a consciência.
Caiu no chão, desmaiado.

quinta-feira, 4 de março de 2010


Há muito tempo, o crepúsculo já anunciava uma noite das mais terríveis e obscuras. Era sabido que seria dificil, mas tornou-se praticamente insuportável. O sol não se pôs vermelho naquele anoitecer. Pôs-se escuro, apagando-se sob um emaranhado negro de árvores mortas e retorcidas.
Tudo era inóspito. Ele já não sabia mais se andava pelo caminho certo. Sua esperança... aquela tão intensa de outrora já começava a minguar. Não havia promessa de lua, nem estrelas. Não havia som. Não havia vida.
A lembrança daquela noite ficou em algum lugar no passado. Nunca mais, depois daquele entardecer lúgubre, viu o sol, ou qualquer outra luz em seu caminho. Não sabia mais se estava cego. Não sabia mais se ainda estava vivo. Aquela noite o engoliu e tem durado dias... talvez um ano ou dois. Não sabe. O tempo também o abandonara. Não sentia fome, nem sede. O sono era irregular e não sonhava mais. Tudo o que lhe restava era algum suor que lhe escorria no rosto e os pés doloridos. Os incensos acabaram, seus cordões desfiaram. Suas gemas se perderam e seu colar de contas arrebentara. Não estava mais protegido.
Em um momento em que até seus demônios o abandonaram e que a fraqueza dominou seu espírito por completo, ele começou a se desesperar. Corria, procurando sair dalí. O ar que respirava era pesado, carregado de umidade. Ofegava e corria... o som duro de seus passos no solo infértil e ressecado o deixava alucinado. Tentou dizer algo, mas não conseguiu... o tempo em que ficou sem falar obstruiu de inicio sua garganta. Mas não podia mais aguentar. Completamente atordoado e suando frio, arrancou um grito agonizante, do fundo de seu peito. O grito irrompeu no escuro e reverberava. A escuridão era cheia de eco. E a noite lhe devolvia o berro, como protestando pelo seu desespero. Ele não suportava. Rebatia o eco com mais gritos desesperados. Corria e gritava. Suava frio e tremia de pânico.
Com as mãos à frente do corpo, procurando um apoio ou uma referência, encontrou uma parede úmida, lisa e com concreções. Abriu os braços para estudar o perímero e percebeu que estava em um túnel rochoso. Gritou mais uma vez. O ar pesado recusava-se a entrar em seus pulmões e a sensações claustrofóbica esmagadora o subjulgava. Ao que tudo indicava, estava perdido dentro de uma galeria de túneis subterrâneos. Provavelmente estava preso alí por todo o tempo em que esteve caminhando no escuro.
Gritava desesperadamente por ajuda, inutilmente. Passou a se esgueirar pelo túnel que afunilava e ficava cada vez menor. Deu meia volta e tentou procurar por mais espaço. Correndo em pânico, acabou tropeçando e caindo violentamente. Sentia a parte superior do olho direito latenjando. Um fluído morno lhe escorria no rosto, se diluindo no suor frio. Estava sangrando. O corpo doía muito; estava muito machucado. Os gritos que o escuro lhe devolviam demoraram um pouco até ceder completamente. E ali, no silencio, no escuro e ferido, tentou se recompor. Resolveu que continuaria em silêncio. Tentaria manter a calma. Não tinha a menor idéia de como sair dalí... mas sabia que deveria domar a si mesmo... ser moldado pelo escuro e pelo ar pesado... se adaptar às exigências que a situação lhe impunha. Tinha que sobreviver... tinha que continuar seu caminho.